quarta-feira, 18 de julho de 2012
Regresso.
E como voltar a casa depois de muito tempo,
não reconhecer os vizinhos
nem saber o que é feito
da minha meninice, da poesia do amor
até que a morte.
No seu lugar, a mala de viagem que
já não cabe no porta-bagagens
dos meus pais.
Encontradas, no fundo da despensa,
três promessas de vida
fora do prazo.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Guião.
Perdoa-me a insistência, mas se ao menos conseguisses deslindar-me o olhar, o sorriso a meia haste e os punhos fechados sobre os joelhos, talvez pudesse tomá-lo como um sinal. Sinal de que devia tentar outra vez. Por favor, adivinha-me. Eu ajudo. Este olhar, o sorriso, os punhos fechados são a vontade calada que tenho de te abraçar.Vá, repete comigo.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
sábado, 12 de setembro de 2009
Por una cabeza.
Um tango ás voltas no gramofonee tu, em pontas, trapezista de cordas friccionadas
a equilibrares-me nos ombros, a guiares-me as pernas
em acrobacia.
Virtuosa do pizzicato das tuas curvas
desempoeiro-te os violinos
faço-me Gardel ou Piazolla
e toco-te de cor, sem maestro ou partituras
dois corpos em vibrato.a equilibrares-me nos ombros, a guiares-me as pernas
em acrobacia.
Virtuosa do pizzicato das tuas curvas
desempoeiro-te os violinos
faço-me Gardel ou Piazolla
e toco-te de cor, sem maestro ou partituras
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
A cage or the heaviest cross ever made.

morro com a mesma cara de menina travessa
como quem pede um pacto de pele post mortem
a clamar por um elogio funebre que me enalteça
a tapar os ouvidos a quem souber a verdade
ouço air ou sigur ros
com as mãos cruzadas sobre o peito
onde ainda trago esta terra fecunda
que nunca chegou a germinar
e nem sinal de flashbacks ou viagens no tempo
nem sombra de recordações em espiral
só uma luz tremeluzente a antever
uma eternidade ás escuras.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Promessa.

Quão implacável é a injustiça da diferença?
E falo daquela que remete o arrebatador, o que te suga até ao tutano e o comedido, que não chega para aquecer os pés no Inverno, aos graus mais extremos do antagonismo.
Quão injusto é não termos a mais leve ideia do que sentenciamos com um resfolegar, um revirar de olhos, um encolher de ombros? A forma como pegamos num copo e baloiçamos o liquido acastanhado, fazendo tilintar as pedras de gelo contra o vidro molhado. O tamburilar nervoso dos dedos sobre o tampo da mesa, de forma absorta, a fazer lembrar uma melodia de Massive Attack. A condenação á morte de um coração de compasso aflitivo, por termos pestanejado antes do tempo. A injustiça é inexorável e galopante, abate-se sobre nós em jeito de castigo e pena perpétua, e faz-nos questionar as regras do Cosmos, se é que as há, e o porquê de não nos terem concedido outra sorte.
Mais injusto que vermo-nos incendiar sozinhos, é termos uma brisa da Sibéria a fulminar o lume que teima em arder em nós.
E sim. Sei de cor as afirmações populares, os provérbios e os ditados, que garantem que o que um dia nos atinge, havemos de infligir a outrém no futuro. Também sei que há-de haver quem te ame, quem te ofereca o Universo na palma da mão e tenha uma estrela que não se sabia que existia , guardada como trunfo. Mas tenho que te avisar que como eu, não vai haver ninguém. Esfrega-me a pretensão e a falta de humildade na cara, ri-te de mim, chama-me exagerada, que eu vou anuir. Tão dramático quanto verdade. Porque os Outros, esses que estão por vir, não hão-de se chamar Teresa, nem hão-de escrever para ti á janela, de cabelo á lua, na esperança que me leves como a prenda que ficou por dar. Não hão-de revolver-te as entranhas com uma paciência oriental, para que todos os dias, sem falhar um, te lembres que existi. Não hão-de cantar á tua porta, na esperança que venhas á janela lançar-me um sorriso que venha de dentro. Daqueles, que se rasgam antes que possamos desenhá-lo, para ficar bonito numa fotografia.
O tempo, as modas, as crises financeiras e a desvalorização da moeda hão-de passar, mas a promessa que te fiz é vitalícia, não há quem desfaça.
Hás-de sentir-me a presença, de quando em vez, ao virar de uma esquina que outrora foi nossa, ao cruzares um espelho e jurares que me viste a teu lado, feita assombração centenária. Quando o mar te vier visitar num dia ensolarado, no conforto de uma cadeira de verga, a fazer planos para um futuro sem a minha assinatura.
Hás-de lembrar-te de mim.
domingo, 12 de julho de 2009
Le secret.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Bausch.
terça-feira, 30 de junho de 2009
AdVerso.
Os medos, as falhas e o travo doce que pode ter um limão
Os teus olhos arregalados e as tuas bochechas ruborizadas não falavam de mim á tua mãe
E as circunferências invisiveis que os meus olhos traçam quando minto, não as tinhas conhecido.
Nunca tinhas arqueado os braços desajeitadamente durante as nossas aulas de ballet
Nem permitido que eu te beijasse a fronte, antevendo a maresia dos teus olhos.
Jamais terias prendido os teus braços á volta da minha cintura, como tentáculos, quando é da cama que me recebes
Ou enterrado em mim um punhado de pérolas num quarto da capital, de olhos selados pela saliva.
Se assim fosse
Nunca tinha beijado o mapa astral que trazes na pele
Nem escolhido estas palavras a pensar em ti
As que te farão sorrir e, se não for pedir muito, as que te farão chorar.
Certamente que nunca tinha conhecido as pregas dos teus lábios, o ângulo dos teus ombros e o teu medo de aranhas
Nem recebido de olhos vendados as tuas conchas milenares.
Quanto ás promessas e á crença,
Continuariam a fazer parte do domínio da ficção
Como este sussurro de eternidade que teimamos em querer ouvir.
Chama-me o que quiseres
Mas se não tivesse sido doce
Esta ausência não pesava mil toneladas nos meus ombros
O meu lugar não estava vazio na tua cama
E nós não andávamos a arriscar o adeus para sempre.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Ardeu.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Cálice.
Encontrei-te e, sem mais nem porquê, eu era outra. Continuava a querer sempre tudo agora, já, ala que se faz tarde, mas tu ias-me ensinando a fazer paciências e a aceitar o tempo, clepsidras e ampulhetas esquecidas. No entanto, não havia meio de domar este amor à velocidade da luz, que me deixava manca e ofegante antes mesmo de chegar à meta. Queria ter-te tido antes, quando ainda eramos crianças, beijos de mentol à sombra de uma árvore e ramos de flores bravas entre as mãos. Queria ter contado estrelas a teu lado, em cima do capô de um carro roubado, numa das nossas primeiras incursões lado a lado. Entre cores e rubores, ter-te amado à pressa, com urgência, em pleno canavial, medos e desejos de mãos dadas, saias e mangas arregaçadas. E a meio de uma aula, ter-te escrito juras de amor na palma da mão, sob o olhar absorto de uma professora de português à beira da reforma. Desejava que me tivesses feito um filho à primeira, obra de tanto querer ou do Espírito Santo, não interessa, e que o parisses comigo, em perfeito encaixe, o prematuro a romper-nos ás duas. Para que depois, sem pestanejar, nos presenteássemos com cama, casa e roupa lavada para o resto da vida.
A verdade é que te encontrei e, sem mais nem porquê, eu era outra. Devolveste-me a crença incondicional nesse malfadado Amor, sobre quem já ouvi dizer cobras e lagartos mas que, agora, me surge como o supremo desenlace de qualquer discórdia. Posso até assegurar-te que é o Amor que te tenho, esta força bruta e catalisadora, o maior responsável pelo equilíbrio do Universo, pelo fim das guerras milenares e pelo pulsar compassado da Humanidade, resistente a qualquer agrura, só porque existes.
terça-feira, 31 de março de 2009
Passé Simple.

É fodido andar assim, a viver pela metade, fingir que somos alguém que merece ser ouvido, um poço de palavras bonitas e curiosidades, quando só nos assalta a concordância do verbo "avoir", no presente do indicativo, olhar-me ao espelho e procurar o brilhozinho do 'antigamente', quando já só me resta recorrer ao eye-liner barato da loja dos chineses, encontrar-te a meio caminho e tomar-me das tuas dores, pôr as minhas de parte porque é mais fácil, dá menos que pensar e acabo a parecer uma tipa digna de confiança, forçar uma bebedeira numa festa, os olhos turvos e as beiças inchadas, feita puta barata, a ver se alguém me toma num canto e me lambe as feridas, dá-me o teu número e pode ser que nos voltemos a encontrar, quando tu estiveres só e eu sozinha estiver, em qualquer rua escura ou no banco do carro que ainda andas a pagar, mulher a arder de novo, é o que sou, quando não me ligas, não me atendes, e me apetece quebrar-me em estilhaços como este espelho, arrancar cabelos, cortar-me ás postas, fazer trinta por uma linha, regressar á escola francesa e pedir que me aceitem nas turmas precoces, que me ensinem a cantar o "frère jacques, frère jacques, dormez-vous?", que me deixem dormir a sesta e almoçar na cantina tudo até ao fim, "quem deixar no prato, não se levanta", percorrer o jardim de inverno da escola de ballet, de sabrinas nos pés e puxo arrepelado, de cor-de-rosa, azul ou vermelho, com o piano a acompanhar numa sinfonia de Tchaikovsky, a vara a marcar compasso e o reflexo no espelho dos projectos de bailarina, sentar-me á chinês nas bancadas do liceu, a fumar os primeiros cigarros, a roer as unhas e a mastigar verniz, a olhar-lhes as curvas e a tolher vontades, a partilhar sonhos e aventuras atrás do pavilhão, voltar áquele dia mal-fadado e trocar-lhe as voltas, trazer-te comigo, mais o pleasures da estee lauder e as essencias dos teus cosméticos, que me trazem um cheiro almiscarado que nao se reproduz, raptar-te e guardar-te na algibeira, contígua dos caramelos e dos trocos que me davas para um sorvete no jardim, ser tão actriz como em sonhos de infância e perpetuar a peça pela vida fora, aplausos em uníssono e elogios sussurrados em espanto, a comer mel no camarim e a aclarar a garganta ao som da Maria Callas, fosse eu como ela, esbarrar-me contigo, a fingir-me distraída e absorta e a achar-te adorável, com esse jeito meio chic mas ordinário, e eu a apoderar-me de um cigarro arrogante, cheque-mate neste jogo de sedução, e a achar que se estivesse nos meus trinta e poucos é que era, que aos vinte ninguém é levado a sério, sentar-me numa cadeira com vista para o mar, tentar lembrar-me do que é ser-se genuíno e acabar a encenar outra simulação, outra didascália a que me obrigo, nao vá eu constatar que afinal nao valho um tostão furado e a singularidade já não mora aqui, apagar o cigarro com o sapato, á luz de um lampião, a cabeça num rodopio de memórias e desejos secretos, o vento a cortar-me a pele e os lábios gretados pelo frio, dar por mim sozinha no sepulcro da noite e fingir que é fácil ir morrendo.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Subjectum Juris.
Eu não estava bem, sublinho. Continuava a ser assaltada por uma tristeza mortificante, que me obrigava a fechar os estores e a deitar-me no chão. Nessas horas horizontais, e só nessas horas, desenhavam-se á minha frente mil e um cenários de ressurreição, vistos á luz de um caleidoscópio, que só se esfumavam quando a porta se entreabria. Tu entravas, derramavas a tua complacência sobre mim, esfregavas-me as nódoas do vestido, levavas-me a colher á boca e findavas com uma palmadinha nas costas, um afago no cabelo, "melhor assim, não?". Eu ensaiava um sorriso, fingia 'sensibilidade e bom senso', expectando um embalo até adormecer , encolhida no teu colo. Tu esquivavas-te ao abraço, sacudias a roupa e fechavas a porta atrás de ti, sem hesitações. E era assim, nesse gesto impensado, que sentenciavas os restantes dias á mesma rotina; expectativas logradas, esperança em pó no cinzeiro. Efabulava, enquanto mordia os dedos ou raspava as unhas no soalho, mil e uma formas de auto-extinção, qual ressurreição qual quê. E, nesse campo, a imaginação tinha limites extensos. Engolia um par de meias e morria por sufocação, de lábios pintados, a constrastar com a cianose. Cobria o corpo com gasolina e ateava-lhe o fogo, fazendo jus á conotação primeva de purificador, que este tinha. Aspirava uma folha de ouro, mergulhava o secador de cabelo no meu banho de imersão, ou suspendia o corpo em ponto fixo, por meio do laço que constringe o pescoço, a esboçar um sorriso. Já as meias estavam dobradas, os fósforos á mão, o secador ligado e a corda ao dependuro, e tu fazias-te notar. Entravas, derramavas a tua complacência sobre mim, esfregavas-me as nódoas do vestido, levavas-me a colher á boca e findavas com uma palmadinha nas costas, um afago no cabelo, "melhor assim, não?".
domingo, 1 de março de 2009
Últim(o)acto.

Let's put things straight.
E antes que te convencas do contrário, deixa-me dizer que não sou uma principiante nestas coisas do amor. Os meus vinte anos são tenros e cheiram a leite, mas levam ás costas outros tantos de batalhas até á morte e duelos de titãs. Este jogo do silêncio e dos travões a derrapar no gelo , já eu o fiz há muito tempo, sem armaduras nem capacetes, chagas feitas corpo. Este braço-de-ferro cordial, de irritações mudas e conversas ofendidas, é-me tão familiar como o afecto a meio-gás que proporciona. Uma festa, mas só ás vezes. Um abraço quando for conveniente. Um beijo aqui e ali, a ter a certeza que é bem-vindo e não deixa mácula, cuidado que alguém vê. Todas as estratégias de não-fazer e não-dizer, já eu pus em prática mil vezes, ensaiadas e estudadas ao pormenor, dissecadas em frente ao espelho. Não matam, mas vao moendo, até reduzirem a pó o gineceu de qualquer flor, por mais que esta queira vingar. Como te disse, eu não sou principiante nestas coisas do amor. Palavras ácidas e díficeis, como-as eu ao pequeno-almoço, de cara lavada e sorriso no rosto, costas prontas para o açoite verbal.
Na verdade, sou é meia-mulher meio-bicho, uma fera ferida como dizia o outro, que morre de medo de outra surra.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Proibido.

Sua puta, dizias tu, entre dentes. De punhos cerrados sobre a mesa, reviravas os olhos em tom de desaprovação, enquanto me vias vestir. Não vais sair. Não deixo. E voltavas a morder os lábios, chamando a eles o vermelho das tuas bochechas ruborizadas, enquanto passavas a mão trémula pelo cabelo. Não pude conter um leve sorriso quando, através do espelho, te vi inclinares-te sobre a mesa e abrires a camisa, nervosa, deixando á mostra um peito onde ainda se viam marcas do meu batón. Fica. Não precisas de ir. Por favor. E eu continuava o jogo do desentendimento e da falta de vontade forjada, abotoando o vestido, pintando os lábios, penteando o cabelo, como se de uma dança ensaiada se tratasse. Agarraste-me o pescoço e mordeste-me o ombro como um animal com o cio. Fica, caralho. Gargalhei por ainda te deixar assim, desenfreada, com o sangue a fervilhar, sem qualquer esforço. Entreguei-me de olhos abertos, morta por apreciar a tua expressão de satisfação e alívio, como um cão ao qual se dá um osso.
Quem me dera que isto não fosse só obra da minha mente descompensada e das horas que passo na cama, sem dormir, a sonhar contigo.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Demoras?
Se eu pudesse, escrever-te-ia um poema tão bonito como o último olhar que me lançaste, antes de fazeres aquela curva em marcha lenta.
domingo, 14 de dezembro de 2008
Ana Luísa Amaral em Entrevista.

Entrevista a Ana Luísa Amaral, por Maria Teresa Freire Coutinho. JUP, Dezembro 08.
- Que papel tem a infância na sua vida, o “tempo das regras decoradas e das terminações verbais” em que “sonhava de livro aberto”?
- Eu acho que a infância tem, ainda, um papel preponderante na minha vida. Parece-me impossível alguém criar e ter aquilo a que se chama um “espírito adulto”. E o que quero eu dizer com isto? Que continuo a comover-me com gestos insignificantes. Noutro dia dei por mim a chorar com a Toy Story, e não vejo as pessoas da minha idade a comoverem-se com o mesmo. Era William Blake que dizia “to see a world in a grain of sand and a heaven in a wild flower, hold infinity in the palm of your hand and eternity in an hour”. E eu penso que ele constrói toda uma poesia que elogia a figura da criança, justamente porque, como dirá outro romântico “A Criança é o pai do Homem”. Embora ligeiramente machista, significa que a criança sabe mais do que Homem. A infância tem para mim, esse encanto e esse lado nostálgico, representando também uma forma de estar na vida. Não quer dizer que eu seja infantil, no sentido da “infantilização” do termo, mas traduzindo-se antes num olhar disponível, aberto e inocente sobre as coisas. Eu sou aberta a tudo, como uma criança.
- Tive a ousadia de me apropriar de parte do seu poema “Coisas de Luz Antigas”, onde diz
“A vida resvalante como gelo
E aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.”
E eu pergunto, o que é que lhe provoca nostalgia?
- Os irmãos que eu não tive. Uma família grande que eu não tive. Normalmente, a nostalgia é construída sobre aquilo que se teve e se deixou de ter. Eu tenho muito a nostalgia do que não tive e gostaria de ter. Elaboro muito sobre um universo ficcionado na minha cabeça e, portanto, perfeito. Assim, as instâncias de nostalgia que eu tenho são relativamente a esse universo. Eu tenho um poema que se chama “Natal a fingir branco”, que refere mais ou menos isso, “ a nostalgia de doer”, ou seja, o natal que não se teve. Há poucas coisas reais que me provoquem nostalgia. Não tenho grandes penas na vida, que me façam dizer “gostava muito de viver outra vez aquele momento”. Acho que cada tempo é um tempo. Esse “namorado de nome bom em férias” existiu, é verdade, mas trata-se, acima de tudo, de uma construção poética. Tenho nostalgia da construção poética e da vivência em torno dela, do namorado não.
- Sei que escreve desde muito nova. Teve, desde cedo, um quarto próprio para o fazer como aconselhava Virginia Woolf?
- Não. Pode parecer estranho, sendo eu filha única e tendo vivido sempre com os meus pais , pertencendo eles á média-alta burguesia, mas só o tive a partir dos quatorze anos. No entanto, quando Virginia Woolf refere o tal “quarto que seja seu”, não se refere apenas ao quarto físico mas também ao psicológico e esse tive-o e continuo a tê-lo. É-me muito fácil estar no meio de quarenta pessoas e arranjar “um quarto” para mim onde consiga escrever.
-Escrever poesia é prazer ou sofrimento? Acontece de forma ensaiada ou é tomada de assalto a meio da noite?
- Acho que a poesia é as duas coisas, prazer e sofrimento. Em vez de lhe chamar sofrimento, chamar-lhe-ia antes angústia. Angústia da palavra que não sai, dos desenhos que acompanham a criação dos poemas e representam a palavra que se quer dizer mas não se consegue. Embora tenha essa angústia, ela é atravessada por um imenso prazer. Não é por masoquismo que escrevo poesia, nem porque me traga compensações. Eu escrevo poesia porque preciso de escrever poesia.
-E é pensada? Faz esboços dos poemas? Ou é assaltada pela inspiração?
-Escrever poesia é prazer ou sofrimento? Acontece de forma ensaiada ou é tomada de assalto a meio da noite?
- Acho que a poesia é as duas coisas, prazer e sofrimento. Em vez de lhe chamar sofrimento, chamar-lhe-ia antes angústia. Angústia da palavra que não sai, dos desenhos que acompanham a criação dos poemas e representam a palavra que se quer dizer mas não se consegue. Embora tenha essa angústia, ela é atravessada por um imenso prazer. Não é por masoquismo que escrevo poesia, nem porque me traga compensações. Eu escrevo poesia porque preciso de escrever poesia.
-E é pensada? Faz esboços dos poemas? Ou é assaltada pela inspiração?
- Depende. As duas coisas são possíveis. Geralmente não é pensada. O primeiro poema do meu livro “Imagens” não foi pensado, mas posteriormente achei que seria interessante contar uma história. Sendo o meu livro mais biográfico, acabou por se tornar também o meu livro mais cifrado. A parte da ideia, da escrita , não é pensada, porque eu não a controlo. É o poema que me controla a mim. A fase seguinte, de trabalhar e de o passar para o computador ou para a máquina de escrever é mais mecânica. Há um poema lindíssimo de Emily Dickinson que traduzi e que diz “Shall i take thee, the Poet said to the propounded word?“, em que a poeta vê uma série de palavras à sua frente que se declaram, e escolhe a que pretende. Finalmente, quando escolhe aquela palavra, há outra que surge sem ser chamada. E essa é a inspiração, que entra de forma desviada, “pelas traseiras”, como um ladrão.
- Luíza Neto Jorge dizia que “o poeta é um animal longo desde a infância”. O que é para si o poeta?
- Luíza Neto Jorge dizia que “o poeta é um animal longo desde a infância”. O que é para si o poeta?
- Se calhar começava com o poema, em vez do poeta. Eu tenho um poema que publiquei que diz “Todo o poema é sobre aquele que sobre ele escreve.” E eu sempre pensei assim, mesmo na altura em que se achava que a poesia era só oficina. A poesia não é só oficina. Eu dou teoria literária e há 30 anos que ensino poesia, e é precisamente o lado que escapa á oficina que permanece um mistério que eu não consigo desvendar. Preferia não falar em dom, mas em talento. Um talento que nasce com quem escreve e que pode ou não ser exercitado.
- Não se aprende , portanto, a escrever?
- Não se aprende , portanto, a escrever?
- Não. Não se aprende a escrever. Aprende-se a desenvolver a sensibilidade, aprende-se a tradição, que é fundamental. Aprender a ler outros poetas e essa leitura pode ser absolutamente fascinante, devastadora, “exhilarating” como se diz em inglês. Pode ser algo que nos inspira, mas não se aprende a fazer um poema. Lembro-me de ter três anos e meio e ouvir uma quadra e saber que faltava ali qualquer coisa.E essa “qualquer coisa” era uma sílaba a mais ou a menos. Nunca precisei de contar pelos dedos para saber o que é um decassílabo, sem que eu soubesse ainda a designação dessa palavra. No entanto, sabia que “amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente” era a perfeição. Lembro-me que o primeiro contacto que tive com Camões foi numa papelaria que havia ao pé da minha escola, em que Camões aparece com um olho tapado e , por baixo, aparecia precisamente esse verso, e eu perguntava-me como é que alguma coisa pode arder sem ser vista. Trata-se do espanto, do maravilhamento. E isso não se ensina.
- Mais uma vez, parti de parte do poema “Testamento”, do seu livro Minha Senhora de Quê, onde diz :
“Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos”
- Mais uma vez, parti de parte do poema “Testamento”, do seu livro Minha Senhora de Quê, onde diz :
“Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos”
Tem medo de morrer?
- Muito medo de morrer. Tenho pavor de morrer.
-Como é que encara a morte?
-Como é que encara a morte?
- Pessimamente. Acho que é uma coisa injustíssima, horrível e não devia acontecer nunca. Acho que é um disparate aquele discurso recorrente sobre quão terrível seria se fossemos imortais e continuássemos a envelhecer. Eu não me importava. Preferia estar “caquéctica”, desde que estivesse viva. Tenho as minhas dúvidas sobre se há ou não outro nível de consciência, gostava que houvesse, seria maravilhoso. Mas eu queria era este nível de consciência. Se reencarnar não me lembro deste sítio onde estive e, mesmo sofrendo imenso, é maravilhoso estar aqui.
- Shakespeare dizia que escrevia para ser imortal. A Ana Luísa escreve com o mesmo propósito?
- Shakespeare dizia que escrevia para ser imortal. A Ana Luísa escreve com o mesmo propósito?
- Não. E o que Shakespeare diz é “So long lives this and this gives life to thee”, ou seja, “tu viverás através dos meus poemas, mesmo quando eu morrer, mesmo quando tu morreres”. Há um lado meu que pensa assim, já que esta brincadeira vai acabar. Dickinson diz, num poema dirigido a Deus, “In thy long paradise of light, no moment will there be, when i shall long for earthly play and mortal company”. Claro que a homofonia e homografia entre “long” e “long”, “longo” e “saudades”, empresta uma ironia ao poema que significa que , na verdade, a poeta vai ter saudades disto, deste lugar, porque o resto , “o longo paraíso de luz”, é uma chatice. Já que eu vou ter abandonar este lugar, todos nós temos, obviamente que gostava muito que os meus poemas ficassem. Mas só o tempo pode dar o valor às coisas. É sempre muito perigoso falarmos do que está hoje a acontecer, dizermos que “este poeta que acaba de surgir é maravilhoso”, porque não temos essa percepção.
-A Ana Luísa não sabe se os seus poemas vão ficar?
-A Ana Luísa não sabe se os seus poemas vão ficar?
- Não sei, não faço ideia. É um sonho que tenho.
-Quais são os poemas que ficam?
-Quais são os poemas que ficam?
- Essa pergunta leva-nos para uma conversa complicada sobre a própria questão da Arte e dos mecanismos de legitimação da Arte. Como é que se fazem os mecanismos da legitimação da arte? Obviamente que tem que passar sempre pela crítica, mas é necessário que passe também pelas pessoas. As pessoas que não são especialistas e que amam o poema pelo poema, a quem o poema diz porque diz e que nem sequer têm uma metalinguagem para teorizar sobre o poema, porque não precisam de ter. Por alguma razão, a primeira edição da poesia de Dickinson teve um sucesso estrondoso , mesmo tratando-se de uma poeta tão difícil de ler. Mas alguém que diz que “o amor é tudo o que há” e que o define assim, obviamente que toca as pessoas. Quem é que não conhece “Senhora , partem tam tristes os meus olhos por vós, meu bem”? As pessoas não sabem que o autor é João Roiz Castell-Branco, não sabem que pertence ao cancioneiro geral, mas também não interessa, porque o poema diz-nos tanto, comunica tanto, que é isso que vale a pena. E aí chegamos ao ponto fundamental. A arte é comunicação. Ninguém escreve para a gaveta. O público pode ser um, um amigo, um irmão , um tio, mas sendo um, já é um publico. Um pintor tem necessidade de mostrar aquilo que faz, um músico tem necessidade de ser ouvido. E essa troca faz-se com as pessoas “normais”, da rua, que muitas vezes podem não perceber o poema, no seu sentido académico, mas são tocadas por um verso. Noutro dia, fui fazer uma leitura de poemas e uma senhora veio ter comigo e disse-me “Não imagina, isto fez por mim o que dois anos de anti-depressivos não fizeram.” E eu acho que isso é que interessa. Não é agora o crítico xis ou ípsilon vir elaborar uma grande teoria sobre o poema. Porque é que nos fica, dos Lusíadas, o episódio de Inês de Castro? Porque é um episódio universal, sobre o amor, a tristeza, o sofrimento e a injustiça. É simultaneamente um episódio poético e político e portanto, humano. O que vai ficar é o humano.
- Trocava mesmo toda a poesia que fez por viver outra vez?
- Trocava mesmo toda a poesia que fez por viver outra vez?
- Não. É mentira. (risos) Eu compus o livro a que pertence esse poema, quando tinha sido operada e fui obrigada a ficar um mês de cama. Mandei os poemas por e-mail a Mª Irene Ramalho, que foi a pessoa que me incentivou, aos 32 anos, a publicar o meu primeiro livro. Esse poema começa precisamente assim, “Trocava a poesia toda que fiz por viver outra vez, é essa ao que parece a minha freudiana fantasia” e a Mª Irene Ramalho fez vários comentários a todos os poemas e, sobre esse, disse “Não trocavas nada, mentirosa”. E é verdade. É um desabafo poético que fica bem num momento de lirismo, mas depois de saber o que sei hoje, não trocava.
-Ana Luísa, Senhora de Quê?
-Ana Luísa, Senhora de Quê?
- Senhora de nada. Nem de mim. E por isso mesmo, mais livre.
Deixem-me ser pretensiosa e partilhar convosco esta entrevista, como se de um "grande feito" se tratasse, da conquista de uma medalha olímpica ou do cume do Monte Evereste. Afinal, não é todos os dias que se entrevista uma Senhora como esta, de quem tanto gosto.
Deixem-me ser pretensiosa e partilhar convosco esta entrevista, como se de um "grande feito" se tratasse, da conquista de uma medalha olímpica ou do cume do Monte Evereste. Afinal, não é todos os dias que se entrevista uma Senhora como esta, de quem tanto gosto.
Um Obrigada cheio de admiração e respeito.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Declaração de propriedade.

É só para dizer que sou tua. Que podes fazer de mim o que quiseres. Guardar-me num baú bafiento e deixar-me a ganhar bolor e rugas, até te lembrares de vir desempoeirar este corpo, as partes mais recônditas , as pregas, as marcas do tempo. Mas se posso pedir-te um favor, não me largues mais. Não me percas. Nunca desvies o olhar do meu, não vá alguém roubar-me e , discretamente, esconder-me dentro do casaco, debaixo do braço.
Tatua-me sobre a pele, a meio caminho dos lábios, perto do sexo, ao alcance da mão, sobre o coração.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Hoje faz frio em Paris.
domingo, 9 de novembro de 2008
Teresa? Antes Vitória.

A (in)visibilidade das coisas. Cassettes para gravar. Durante muito tempo, não soube como se escrevem Cassettes. Ah, K7's. Notícias tão antigas em revistas conservadas. Deambular é sempre deambular. Não encerra em si nenhum propósito definido. A palavra que começa por P. O engano dos outros. A puta da subjectividade. E a palavra que começa por P outra vez. Uma mancha no sofá faz zangar qualquer mãe. Não fosse a minha mãe, mãe. A puta da vontade de independencia. E a palavra que começa por P outra vez. A voz de uma diva enterrada no rádio antigo do meu avô. Nunca gostei . Nem da voz dela. Nem do rádio antigo. A puta da irritabilidade. Come on, aknowledge yourself. Breathe on, little sister. A voz da Beth Gibbons. Esta já me agrada grandemente. Partir chávenas de café. Raios partam. Apanham-se aos bocados. A loiça é o mais fácil de partir. O meu vizinho tem um ford mustang. Mentira, nem dinheiro para comprar um casaco apresentável ele tem. Então não é o meu vizinho. Deve ser o chulo da prostituta do prédio em frente. Sim, disseram-me que lá morava uma puta. A palavra que começa por P. É o expoente máximo do desespero e miséria humanas. Treta. Há quem o faça porque gosta. Que crueldade. Ninguém se humilha e se rebaixa, porque gosta. E no entanto há quem o faça. O elevador do meu prédio não funciona. Mais vale é ficar em casa. Vi As Horas vinte vezes. A Virginia Woolf e as palavras que eram só suas, "vestígios de insanidade" diziam uns. Serviu-se delas como mais ninguém, enquanto a mão trémula escrevia sobre o papel. Ofereceu-nos pedaços de céu, de mão beijada, para se acabar sem cerimónias ou hesitações; só o peso de cada bolso a impedi-la de respirar. A puta da liberdade. A palavra que começa por P. Deviam-me ter chamado Vitória. Estaria condenada a ela. Não, preferiram pôr-me Teresa. Associações inevitáveis á Santa Teresinha. Ou a D. Teresa. Que decepcionante. Nunca durmo nada quando se instalam cá em casa. E as instalações são permanentes. A puta da paciência. E que impaciente que sou, dizem eles. Era o que me faltava sentir estes arrepios afoitos. Espirro. Só me faltava a puta de uma constipação.
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