sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A cage or the heaviest cross ever made.


morro com a mesma cara de menina travessa

como quem pede um pacto de pele post mortem

a clamar por um elogio funebre que me enalteça

a tapar os ouvidos a quem souber a verdade


ouço air ou sigur ros

com as mãos cruzadas sobre o peito

onde ainda trago esta terra fecunda

que nunca chegou a germinar


e nem sinal de flashbacks ou viagens no tempo

nem sombra de recordações em espiral

só uma luz tremeluzente a antever

uma eternidade ás escuras.


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Promessa.


Quão implacável é a injustiça da diferença?
E falo daquela que remete o arrebatador, o que te suga até ao tutano e o comedido, que não chega para aquecer os pés no Inverno, aos graus mais extremos do antagonismo.
Quão injusto é não termos a mais leve ideia do que sentenciamos com um resfolegar, um revirar de olhos, um encolher de ombros? A forma como pegamos num copo e baloiçamos o liquido acastanhado, fazendo tilintar as pedras de gelo contra o vidro molhado. O tamburilar nervoso dos dedos sobre o tampo da mesa, de forma absorta, a fazer lembrar uma melodia de Massive Attack. A condenação á morte de um coração de compasso aflitivo, por termos pestanejado antes do tempo. A injustiça é inexorável e galopante, abate-se sobre nós em jeito de castigo e pena perpétua, e faz-nos questionar as regras do Cosmos, se é que as há, e o porquê de não nos terem concedido outra sorte.
Mais injusto que vermo-nos incendiar sozinhos, é termos uma brisa da Sibéria a fulminar o lume que teima em arder em nós.
E sim. Sei de cor as afirmações populares, os provérbios e os ditados, que garantem que o que um dia nos atinge, havemos de infligir a outrém no futuro. Também sei que há-de haver quem te ame, quem te ofereca o Universo na palma da mão e tenha uma estrela que não se sabia que existia , guardada como trunfo. Mas tenho que te avisar que como eu, não vai haver ninguém. Esfrega-me a pretensão e a falta de humildade na cara, ri-te de mim, chama-me exagerada, que eu vou anuir. Tão dramático quanto verdade. Porque os Outros, esses que estão por vir, não hão-de se chamar Teresa, nem hão-de escrever para ti á janela, de cabelo á lua, na esperança que me leves como a prenda que ficou por dar. Não hão-de revolver-te as entranhas com uma paciência oriental, para que todos os dias, sem falhar um, te lembres que existi. Não hão-de cantar á tua porta, na esperança que venhas á janela lançar-me um sorriso que venha de dentro. Daqueles, que se rasgam antes que possamos desenhá-lo, para ficar bonito numa fotografia.
O tempo, as modas, as crises financeiras e a desvalorização da moeda hão-de passar, mas a promessa que te fiz é vitalícia, não há quem desfaça.
Hás-de sentir-me a presença, de quando em vez, ao virar de uma esquina que outrora foi nossa, ao cruzares um espelho e jurares que me viste a teu lado, feita assombração centenária. Quando o mar te vier visitar num dia ensolarado, no conforto de uma cadeira de verga, a fazer planos para um futuro sem a minha assinatura.
Hás-de lembrar-te de mim.

domingo, 12 de julho de 2009

Le secret.


Violaste-me um segredo, Violante.

E ao roubá-lo, levaste um fio de pérolas e o meu diário, sem que pudesse sequer rodar-lhe o trinco. Se o leres, lembra-te que as palavras de Aimé Cesaire e Eeva-Liisa Manner não são as minhas, mas que quem tas escreve sou eu.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Bausch.



“Uma monja com um gelado, uma santa com patins, um rosto de rainha no exílio, de fundadora de ordem religiosa, de juíza de um tribunal metafísico, que de repente nos pisca o olho.”

Fellini, sobre Pina Bausch, a quem deu um papel no seu filme "Navio".

terça-feira, 30 de junho de 2009

AdVerso.



Antes não tivesse sido doce.



Não tinhas decifrado o enigma


Os medos, as falhas e o travo doce que pode ter um limão


Os teus olhos arregalados e as tuas bochechas ruborizadas não falavam de mim á tua mãe



E as circunferências invisiveis que os meus olhos traçam quando minto, não as tinhas conhecido.



Nunca tinhas arqueado os braços desajeitadamente durante as nossas aulas de ballet


Nem permitido que eu te beijasse a fronte, antevendo a maresia dos teus olhos.


Jamais terias prendido os teus braços á volta da minha cintura, como tentáculos, quando é da cama que me recebes


Ou enterrado em mim um punhado de pérolas num quarto da capital, de olhos selados pela saliva.




Se assim fosse


Nunca tinha beijado o mapa astral que trazes na pele


Nem escolhido estas palavras a pensar em ti


As que te farão sorrir e, se não for pedir muito, as que te farão chorar.


Certamente que nunca tinha conhecido as pregas dos teus lábios, o ângulo dos teus ombros e o teu medo de aranhas


Nem recebido de olhos vendados as tuas conchas milenares.


Quanto ás promessas e á crença,



Continuariam a fazer parte do domínio da ficção



Como este sussurro de eternidade que teimamos em querer ouvir.




Chama-me o que quiseres


Mas se não tivesse sido doce


Esta ausência não pesava mil toneladas nos meus ombros


O meu lugar não estava vazio na tua cama


E nós não andávamos a arriscar o adeus para sempre.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ardeu.


Esta dor é diabólica
Faz mossa e abre feridas
Nem com alcóol etílico lá vai.

Juntar-lhe um fósforo aceso.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Cálice.


Encontrei-te e, sem mais nem porquê, eu era outra. Continuava a querer sempre tudo agora, já, ala que se faz tarde, mas tu ias-me ensinando a fazer paciências e a aceitar o tempo, clepsidras e ampulhetas esquecidas. No entanto, não havia meio de domar este amor à velocidade da luz, que me deixava manca e ofegante antes mesmo de chegar à meta. Queria ter-te tido antes, quando ainda eramos crianças, beijos de mentol à sombra de uma árvore e ramos de flores bravas entre as mãos. Queria ter contado estrelas a teu lado, em cima do capô de um carro roubado, numa das nossas primeiras incursões lado a lado. Entre cores e rubores, ter-te amado à pressa, com urgência, em pleno canavial, medos e desejos de mãos dadas, saias e mangas arregaçadas. E a meio de uma aula, ter-te escrito juras de amor na palma da mão, sob o olhar absorto de uma professora de português à beira da reforma. Desejava que me tivesses feito um filho à primeira, obra de tanto querer ou do Espírito Santo, não interessa, e que o parisses comigo, em perfeito encaixe, o prematuro a romper-nos ás duas. Para que depois, sem pestanejar, nos presenteássemos com cama, casa e roupa lavada para o resto da vida.

A verdade é que te encontrei e, sem mais nem porquê, eu era outra. Devolveste-me a crença incondicional nesse malfadado Amor, sobre quem já ouvi dizer cobras e lagartos mas que, agora, me surge como o supremo desenlace de qualquer discórdia. Posso até assegurar-te que é o Amor que te tenho, esta força bruta e catalisadora, o maior responsável pelo equilíbrio do Universo, pelo fim das guerras milenares e pelo pulsar compassado da Humanidade, resistente a qualquer agrura, só porque existes.