terça-feira, 25 de novembro de 2008

Hoje faz frio em Paris.


Não magoarás.
Não maltratarás.

E no entanto, continuas a fazê-lo. Ás vezes, bato no peito para afastar pensamentos doentios e vontades crueis. Como que desejando que desaparecesses. O meu medo é que aquilo que te sobreviva me agrida também.


Espero sobreviver-te.

domingo, 9 de novembro de 2008

Teresa? Antes Vitória.


A (in)visibilidade das coisas. Cassettes para gravar. Durante muito tempo, não soube como se escrevem Cassettes. Ah, K7's. Notícias tão antigas em revistas conservadas. Deambular é sempre deambular. Não encerra em si nenhum propósito definido. A palavra que começa por P. O engano dos outros. A puta da subjectividade. E a palavra que começa por P outra vez. Uma mancha no sofá faz zangar qualquer mãe. Não fosse a minha mãe, mãe. A puta da vontade de independencia. E a palavra que começa por P outra vez. A voz de uma diva enterrada no rádio antigo do meu avô. Nunca gostei . Nem da voz dela. Nem do rádio antigo. A puta da irritabilidade. Come on, aknowledge yourself. Breathe on, little sister. A voz da Beth Gibbons. Esta já me agrada grandemente. Partir chávenas de café. Raios partam. Apanham-se aos bocados. A loiça é o mais fácil de partir. O meu vizinho tem um ford mustang. Mentira, nem dinheiro para comprar um casaco apresentável ele tem. Então não é o meu vizinho. Deve ser o chulo da prostituta do prédio em frente. Sim, disseram-me que lá morava uma puta. A palavra que começa por P. É o expoente máximo do desespero e miséria humanas. Treta. Há quem o faça porque gosta. Que crueldade. Ninguém se humilha e se rebaixa, porque gosta. E no entanto há quem o faça. O elevador do meu prédio não funciona. Mais vale é ficar em casa. Vi As Horas vinte vezes. A Virginia Woolf e as palavras que eram só suas, "vestígios de insanidade" diziam uns. Serviu-se delas como mais ninguém, enquanto a mão trémula escrevia sobre o papel. Ofereceu-nos pedaços de céu, de mão beijada, para se acabar sem cerimónias ou hesitações; só o peso de cada bolso a impedi-la de respirar. A puta da liberdade. A palavra que começa por P. Deviam-me ter chamado Vitória. Estaria condenada a ela. Não, preferiram pôr-me Teresa. Associações inevitáveis á Santa Teresinha. Ou a D. Teresa. Que decepcionante. Nunca durmo nada quando se instalam cá em casa. E as instalações são permanentes. A puta da paciência. E que impaciente que sou, dizem eles. Era o que me faltava sentir estes arrepios afoitos. Espirro. Só me faltava a puta de uma constipação.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

P.S -


Não sei se sabes. Na verdade, acho que nunca fiz questão que o percebesses. Soavam melhor as palavras de indiferença ou de provocação, a deixar transparecer, de leve, esta preocupação e carinho dilacerantes que me rasgam o peito.Só de leve, não fosses tu acreditar que me roubaste para ti e que a possibilidade de fuga já não existe.Agradava-me mais a ideia de me manter á tona, evitando mergulhar de cabeça neste emaranhado de emoções e sensações indizíveis, sem me aperceber que a superfície já estava demasiado longe para que pudesse alcancá-la.Sem confidenciar que te imagino de noite, na minha cama, tão real como a dor de saber que não estás, para que pudesse ouvir-te respirar. Sim. Ouvir-te bastava. Sem te contar que cada olhar teu na minha direcção, traz a mim o mundo inteiro. E que cada milímetro de epiderme, cada fibra capilar, cada ruga tatuada pelo tempo, representam perigosamente a eminência do fim, mesmo que a vida te prometa a perpétua felicidade de quem tem tudo pela frente.

Não sei se sabes.

Na verdade,acho que nunca fiz questão que o percebesses.

Mas é sempre em ti que penso.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

04:32


Avanças e retrocedes sucessivamente. A tua identidade sofre metamorfoses e mutações, em vez de se reafirmar. Rodopias num delírio visual e auditivo, em frente á televisão, de comando na mão, para depois desviares o olhar e serem essas as imagens que continuas a ver. Para depois a tua vida se tornar num filme que viste e gostaste especialmente, daqueles "que tocam" e fazem chorar, que sonhaste ver de mão dada com alguém mas acabaste por ver sozinho, entregue á tua fealdade e deprimente simplicidade de seres só mais um. Para depois te sentares numa mesa demasiado pequena, a ingerires uma refeição que não cozinhaste e que tráz em si o sabor amargo da falta que te faz a tua mãe.
Comes e amaldiçoas fervorosamente aqueles cujas vidas são "normais" e têm tudo aquilo que não tens, sem te aperceberes que a insatisfação está impregnada em ti e nos demais,e que a verdade é feia e é essa.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Palavras.



Olhó Robot.




Hoje acordei assim, ao som dos Saladas de Frutas, enrolada num sofá com vista para o mar. "É para o menino e para a menina, olhó... Trabalha muito e gasta pouco, olhó..." E lá fora, um bébe que chora, a música de um telemóvel; o choradinho do trânsito; uma gargalhada colorida de criança, uma sirene, o nervosismo da gaivota. E as palavras.
Enquanto o resto fervilha, elas estão em banho-maria, entre as entranhas e a boca, á espera da conclusão do processo de selecção para sair. Confio cegamente nelas,na força que levam quando pronunciadas, de forma eloquente e em voz alta, para que se ouça o que têm para dizer. E no entanto, errei.E fi-lo tremendamente. Servi-me das palavras amputadas,das insípidas,das sem-história e das feinhas, que só trazem consigo um ruído animal e desinteressante, e deixam no outro, uma enorme sensaçao de decepção.

Se o arrependimento matasse...

domingo, 5 de outubro de 2008

Pretérito Imperfeito.


Gostava de ti como és, essa arrogância escondida, esse andar quase cambaleante de pés para dentro , a estranheza,a dureza e tudo. Eu, desbocada e paranóica, que gargalho demasiado alto, que preferia refugiar-me em teatros perigosos e fugir ao teu whisky-cola, gostava de ti como és. Eu, a camisola que não diz com a saia, a puta da mania da racionalização e de verbalizar tudo o que sente, os incontáveis anéis nos dedos e os caracóis que te turvavam a vista quando mergulhavas no meu ombro.Eu, que quase não corto o cabelo e roo as unhas até ao sabugo pelos nervos de te encontrar, que me sento dobrada para a frente, sobre os joelhos, geralmente descalça pelo chão. Que me dobrava sobre ti e te fazia rir e corar de vergonha, para depois te encher de demasiados beijos até me chamares "chata" e me empurrares com mais força do que a que o momento pedia. Gostava de ti como és, misteriosa e sádica, mais fria e distante, mas sensível ao meu toque de menina carente. Tu, a que se perdia por caminhos que eu não sabia percorrer mas que, a todo o custo, palmilhei á tua procura. Tu, a que fazia asneiras e pedia desculpa meio a sério meio a brincar, entre vozes anasaladas e carinhosas e pedidos de desculpa. Eu, a que chegou cheia de sonhos na algibeira e os perdeu pelo caminho, acabando com um peito duro como pedra, onde não dá prazer deitar a testa.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

She will kill herself with poison.



She will kill herself with poison. E o segredo estará na forma como segurou a saia, enquanto dançava ao som de uma qualquer melodia que ouviu, algures na Rua do Almada. Nas chavenás de leite que bebeu encostada á ombreira da porta, de olhos postos no futuro, enquanto a poção lhe aquecia a garganta e, dentro de si, crescia a vontade de emancipação. No cheiro a mofo do papel de parede de uma avó, que insistia nas flores e em acompanhar as tardes soalheiras com mel e bolo de iogurte. Nos saltos quase sempre sincronizados, de meia dúzia de almas curiosas e afoitas, com tinta nos sapatos e as caras cobertas de purpurina. No pôr-do-sol dos pés enterrados na areia, com o vento a arranhar-nos a pele, e os olhos salgados como o mar que nos convida a entrar. She will kill herself with poison. E o segredo estará escondido numa caixa de cartão,gravado num papel bolorento que se rasgou de um diário de viagem. Nas costas marcadas de quem travou batalhas e criou tragédias, nas quais sempre quis usurpar para si o papel de Herói.
Esquecendo-se , no entanto, que em tempo de tragédia, o Herói acaba sempre sepultado.

She will kill herself with poison.